14 de janeiro de 2026

Latossolos no semiárido nordestino: o que essa contradição revela?

Por Grace Bungenstab Alves

No semiárido nordestino, marcado por seca, sazonalidade e solos muitas vezes rasos, por que ainda encontramos Latossolos, com perfis profundos e muito intemperizados, típicos de condições tropicais mais úmidas?

A resposta não cabe em uma explicação única. Ela exige olhar para a paisagem como um sistema em evolução, no qual solo e relevo precisam ser lidos juntos e em múltiplas escalas. Em outras palavras: a paisagem tem memória, e o solo é parte central dessa memória.

Este post apresenta as ideias principais do artigo de Grace Bungenstab Alves (2025), que discute como a integração entre solo e relevo ajuda a separar heranças antigas de reorganizações recentes no semiárido nordestino. Considerando ainda, por que isso importa para entender vegetação, água e processos de transformação do relevo.

“No semiárido, o solo não é só ‘resultado das condições atuais’; ele é memória dos processos que permitiram a construção desta paisagem.”


Por que inventário separado não explica a evolução da paisagem

Listar solos, mapear formas de relevo e descrever vegetação é importante. O problema aparece quando o inventário vira explicação. Inventário separado de solo e relevo não explica o processo nem a evolução da paisagem.

Quando solo e relevo são analisados como “camadas independentes”, perde-se justamente o que organiza a paisagem: os processos que conectam materiais, formas e tempo. Por isso, leituras rápidas costumam falhar nas áreas mais complexas, especialmente nas zonas de transição.

Solos registram heranças e também se reorganizam ativamente, alterando as formas e a vegetação instalada. É justamente neste contexto que a “contradição” dos Latossolos no semiárido deixa de ser um problema e vira uma chave interpretativa.


Dois grandes conjuntos de solos para interpretar o semiárido nordestino

Como síntese, o artigo propõe dois grandes conjuntos de solos, agrupados pelo histórico evolutivo das paisagens em que ocorrem:

  • Solos relictuais (lateríticos): herdados de condições tropicais mais úmidas pretéritas, associados a superfícies e materiais que preservam parte desse “tempo profundo”.
  • Solos recentes (formados sob semiaridez): como Luvissolos, Planossolos, Vertissolos e Chernossolos, cuja distribuição acompanha majoritariamente áreas mais dissecadas e denudadas pela esculturação cenozoica.

Esse enquadramento ajuda a organizar a leitura regional sem reduzir a paisagem a uma regra simples. Ele permite perguntar, com mais precisão: o que é herança? o que é ajuste recente? e o que está “no meio do caminho”, em transição?

Figura 1 – Grupo de solos do Nordeste brasileiro agrupados por condições de formação, profundidade ou drenagem do perfil. Fonte: Alves, 2025.


Vertissolos com idades holocênicas por LOE: por que isso exige cautela?

Um ponto sensível (e muito comum em leituras apressadas) é interpretar uma idade obtida em solo como se fosse, automaticamente, a idade da deposição.

No artigo, Vertissolos da Superfície Sertaneja Setentrional aparecem com idades holocênicas por Luminescência Opticamente Estimulada (LOE). A interpretação central aqui é metodológica e direta: em ambientes com pedogênese ativa e mistura vertical, o sinal cronológico pode refletir processos internos do solo (reorganização e dinâmica pedogenética), e não apenas deposição recente do material.

O recado é claro: idades em solo não devem ser lidas como carimbo automático de “morfogênese recente”. Para entender o que a idade significa, é preciso combinar cronologia absoluta com descrição detalhada, evidências micromorfológicas dos solos e leitura geomorfológica.

Figura 5 – Paisagem Vertissólica em Sousa/PB. a) Mapa de localização da área de estudo; b) detalhes do Vertissolo estudado; c) croqui do perfil com as idades encontradas; d) gráficos de granulometria e índices de intemperismo; e) perfil topográfico com a localização do perfil estudado. Fonte: Reis et al., 2025.


Quando Latossolos se transformam em Planossolos, e o solo participa do rebaixamento de superfícies

Se existe um lugar onde as generalizações quebram, é nas zonas de transição. É nelas, como exemplificado no artigo, que aparecem as informações de processos decisivos para entender superfícies rebaixadas no Nordeste: a transformação de Latossolos em Planossolos por desequilíbrio pedobioclimático.

Em termos simples: materiais latossólicos (herdados) podem entrar em desequilíbrio sob condições semiáridas, gerando horizontes lixiviados e mais arenosos. Esses horizontes ficam mais suscetíveis à remoção, alteram a circulação de água na vertente e influenciam a própria evolução das formas.

Isso sustenta uma conclusão direta: generalizações regionais apressadas erram justamente nas zonas de transição, onde a complexidade é maior e estão as chaves de entendimento da paisagem.

Figura 4 – Trincheiras de um Sistema Latossolo/Planossolo. a) Latossolo Vermelho-Amarelo Eutrófico Cambissólico; b) Neossolo Regolítico Psamítico Solódico Gleissólico; c) Planossolo Háplico Eutrófico Solódico. Fonte: Santos, 2025.


Então, como ler o semiárido nordestino?

Ler uma paisagem requer entendimento detalhado da integração dos elementos que a compõem. No semiárido nordestino, isso significa reconhecer que:

  • há solos que preservam heranças de fases mais úmidas;
  • há solos formados sob semiaridez e associados a paisagens mais dissecadas;
  • e há transições em que processos pedológicos são decisivos para entender a distribuição das formas do relevo e dos mosaicos de vegetação.

Essa síntese não substitui estudos locais com cronologia absoluta e análises detalhadas de solos. Ela funciona como um quadro interpretativo para orientar perguntas melhores e evitar leituras simplificadoras.


Por que isso importa para políticas públicas?

Entender como solo e relevo evoluíram (e ainda evoluem) não é só debate acadêmico. A leitura integrada, ancorada em cronologias absolutas e estudos detalhados de solos, pode sustentar estratégias de adaptação baseadas na natureza, com implicações para planejamento territorial, conservação de serviços ambientais e políticas públicas.

Sem essa base, “soluções” correm o risco de tratar paisagens complexas como se fossem homogêneas, e é justamente isso que o artigo mostra que o semiárido não é.


Para ler o artigo completo e outras referências

ALVES, Grace Bungenstab. Solo e relevo como chave para compreensão da evolução da paisagem semiárida nordestina. Caderno de Geografia, 2025, v. 35, Número Especial 1, p. 251–272. DOI: 10.5752/p.2318-2962.2025v35nesp1p251.

REIS, Amanda Dias dos; FIGUEIREDO, Matheus Santos Silva; ALVES, Grace Bungenstab; PUPIM, Fabiano N.; FURQUIM, Sheila A. C. Decoding luminescence ages through pedogenesis: Vertisols in a semiarid sedimentary basin. Trabalho apresentado no 16th New World Luminescence Dating Workshop (NWLDW2025), São Paulo, 2025.

SANTOS, W. R. Sistema Latossolo–Planossolo: autodesenvolvimento pedológico e evolução da paisagem. 2025. 168 f. Tese (Doutorado em Geografia) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2025.

 

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