Corte de vertente com solo avermelhado e material basáltico alterado expostos sob vegetação, usado para ilustrar a leitura dos solos na paisagem.
12 de maio de 2026

Perfil de solo: uma janela para entender a gênese, a degradação e a memória das paisagens

Por Grace Bungenstab Alves

Um artigo recém-publicado no European Journal of Soil Science defende que observar, descrever e interpretar perfis de solo continua sendo uma prática indispensável para compreender como os solos se formam, funcionam e respondem à degradação ambiental.

O texto, intitulado “Soil Profiles: A Window Into Soil Genesis and Degradation”, reúne pesquisadores de diferentes instituições internacionais e conta com a participação de Grace B. Alves, professora da Universidade Federal da Bahia e pesquisadora do Grupo COLAPSO – Natureza e Sociedade. O artigo integra uma edição comemorativa dos 75 anos do European Journal of Soil Science e propõe uma reflexão crítica sobre o lugar da pedologia na ciência contemporânea.

A ideia central é direta: o perfil de solo não é apenas uma seção vertical aberta no terreno. Ele é uma forma de ler a história do solo e da paisagem. Ao revelar horizontes, camadas, estruturas, cores, texturas, raízes, concreções, feições de oxidação e de redução, zonas endurecidas ou acumuladas, o perfil permite interpretar processos que não se observam em amostragens superficiais.

O solo não termina nos primeiros centímetros

Grande parte dos levantamentos ambientais e agrícolas ainda se concentra nos primeiros 20 ou 30 centímetros do solo. Essa prática é útil para algumas análises, mas insuficiente para compreender o funcionamento do sistema como um todo.

O artigo mostra que muitos fatores decisivos para o crescimento das plantas, a circulação da água, a disponibilidade de nutrientes, a fertilidade, a drenagem e a estabilidade ambiental ocorrem abaixo da superfície. Horizontes natrícos, horizontes cimentados por cálcio ou ferro, por exemplo, podem impor limitações severas às raízes, à infiltração da água e ao uso agrícola da terra.

Em outras palavras, olhar apenas a superfície pode levar a diagnósticos incompletos. Para entender a capacidade de um solo de prestar serviços ecossistêmicos, sustentar vegetação, armazenar carbono, filtrar água ou registrar mudanças ambientais, é preciso abrir e interpretar o perfil do solo.

Uma linguagem científica em risco

Um dos pontos mais fortes do artigo é o alerta sobre o enfraquecimento da formação em pedologia. Segundo os autores, a descrição de perfis de solo tem se tornado uma “linguagem perdida” na própria ciência do solo. A redução da formação de pedólogos, a diminuição das atividades de campo e o menor investimento institucional nessa prática ameaçam uma habilidade científica básica: saber ler o solo em sua organização vertical.

Esse alerta não é nostálgico. Não se trata de defender o campo contra as tecnologias digitais. O argumento é mais rigoroso: sensores, inteligência artificial, espectroscopia, mapeamento digital e aprendizado de máquina ampliam enormemente a capacidade de análise, mas não substituem a observação direta do perfil. Pelo contrário, dependem dela para validação, calibração e interpretação.

O artigo propõe, portanto, uma integração entre a tradição pedológica e as novas tecnologias. A ciência do solo precisa de sensores, bancos de dados, modelagem e imagens digitais. Mas também precisa de pá, trincheira, descrição morfológica, comparação entre horizontes e interpretação da posição do solo na paisagem.

Pedodiversidade, paisagem e sustentabilidade

Outro conceito importante discutido no texto é o de pedodiversidade. Assim como a biodiversidade expressa a variedade de formas de vida, a pedodiversidade expressa a diversidade de solos, propriedades e horizontes em uma região ou paisagem.

Essa diversidade resulta da interação entre o material de origem, o clima, a topografia, os organismos e o tempo. Por isso, os perfis de solo não são objetos isolados. Eles fazem parte de sequências, vertentes, catenas e sistemas de paisagem.

Ao defender a importância dos perfis, o artigo também reforça uma agenda de conservação e de manejo sustentável. Estratégias de uso da terra não podem basear-se apenas em mapas genéricos ou em análises superficiais. Elas precisam considerar como os solos variam no espaço e em profundidade.

Essa discussão dialoga diretamente com temas recorrentes nas pesquisas do Grupo COLAPSO, especialmente nas relações entre solos e paisagem, pedogênese, evolução do relevo, geodiversidade e mudanças ambientais. Ver também: Topossequências: o que estamos realmente estudando? e Solo e Paisagem: o que (ainda) estamos tentando entender?.

Perfis de solo como memória da paisagem

O artigo também destaca o papel dos perfis de solo na reconstrução de paisagens e na geoarqueologia. Solos registram processos de erosão, deposição, estabilidade, uso humano, mudanças climáticas e transformações ambientais.

Essa capacidade de registrar o passado é abordada no texto sob a noção de “memória do solo”. Em certos contextos, os solos funcionam como arquivos de longa duração. Em outros casos, a perda dessa memória pode indicar instabilidade, erosão ou degradação.

Essa perspectiva é especialmente relevante para estudos em paisagens tropicais e semiáridas, onde solos antigos, horizontes preservados, materiais retrabalhados e superfícies geomórficas podem revelar trajetórias complexas de formação e transformação da paisagem.

Museus, monólitos e alfabetização em solos

Além da pesquisa científica, o artigo chama a atenção para a importância da alfabetização em solos. Perfis preservados, monólitos, museus de solos e coleções didáticas são apresentados como ferramentas para tornar visível o que geralmente permanece oculto.

Os autores lembram que os solos raramente ocupam lugar de destaque em museus de história natural ou em currículos escolares. Essa ausência dificulta a compreensão pública de sua importância. Monólitos e exposições de perfis podem ajudar a comunicar a diversidade dos solos, seus processos de formação e os impactos das ações humanas.

Nesse ponto, o artigo aproxima ciência, educação e comunicação pública. Descrever perfis de solo não é apenas uma prática técnica. É também uma forma de ampliar a cultura científica sobre um recurso essencial à vida.

Por que este artigo importa

A mensagem principal do artigo é clara: em um mundo marcado pela degradação dos solos, mudanças climáticas, insegurança alimentar e perda de biodiversidade, a descrição de perfis continua sendo uma necessidade científica e política.

Sem perfis de solo, perde-se parte da capacidade de interpretar processos profundos, diagnosticar limitações ambientais, planejar o uso da terra e compreender a história das paisagens. Sem formação em pedologia, perde-se uma linguagem essencial para conectar o campo, o laboratório, os mapas, os sensores e as políticas públicas.

Ao participar dessa publicação internacional, contribuímos para um debate central da ciência do solo contemporânea: como formar novas gerações capazes de combinar observação de campo, rigor conceitual e tecnologias digitais para compreender os solos em sua profundidade e complexidade.

Mais do que uma defesa da pedologia clássica, o artigo é um chamado a reinvestir na leitura dos perfis de solo como base para uma ciência mais integrada, crítica e útil à sociedade.

Referência

SCHILLACI, Calogero; ALVES, Grace B.; BAYAD, Mohamed; BONDI, Giulia; BURN, Christopher R.; BREURE, Timo; CERTINI, Giacomo; CHEN, Songchao; D’AMICO, Michele E.; et al. Soil Profiles: A Window Into Soil Genesis and Degradation. European Journal of Soil Science, v. 77, e70322, 2026. https://doi.org/10.1111/ejss.70322

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