Três mapas de Mato Grosso mostram a distribuição de 61.005 focos de erosão hídrica linear, sua densidade espacial e 15 áreas críticas, classificadas como moderadamente críticas, críticas e extremamente críticas. Fonte: Tavares, Grace Bungenstab Alves e Castro (2026).
2 de outubro de 2026

61 mil focos de erosão revelam áreas críticas de degradação do solo no Mato Grosso

Por Grace Bungenstab Alves

Estudo publicado na revista Earth Surface Processes and Landforms mapeia a erosão hídrica linear em todo o estado e mostra como relevo, solos e incompatibilidades entre uso da terra e potencial agrícola ajudam a explicar a concentração de ravinas e voçorocas

Em um estado com mais de 900 mil quilômetros quadrados, localizar uma ravina ou uma voçoroca é relativamente simples. O desafio é descobrir se milhares dessas feições formam um padrão e, principalmente, entender por que se concentram em determinados setores da paisagem.

Um novo estudo realizado no Mato Grosso enfrentou esse problema em uma escala pouco usual. Por meio da interpretação sistemática de imagens de alta resolução, os pesquisadores mapearam 61.005 focos de erosão hídrica linear de médio e grande porte. O levantamento permitiu identificar 15 áreas críticas e investigar quais características ambientais e formas de uso da terra estão associadas à maior concentração de processos erosivos.

Os resultados foram publicados no artigo “Linear Water Erosion in the State of Mato Grosso (Brazil): Spatial Analysis and Identification of Critical Areas”, na revista Earth Surface Processes and Landforms. O estudo é assinado por Kássio Samay Ribeiro Tavares, Grace Bungenstab Alves e Selma Simões de Castro.

O trabalho teve origem na pesquisa desenvolvida por Kássio Samay Ribeiro Tavares durante a Especialização em Geoprocessamento, Levantamento e Interpretação de Solos da Unisolos/UFMG e no doutorado em Geografia na Unicamp, sendo posteriormente aprofundado até resultar no artigo agora publicado.

Mais do que apenas contabilizar ravinas e voçorocas, a pesquisa buscou compreender por que a erosão hídrica linear se distribui de forma tão desigual no território. A resposta passa pela interação entre o relevo, os solos e o uso da terra e mostra por que a degradação não pode ser explicada por um único condicionante.

Quando a água deixa marcas permanentes na paisagem

A erosão hídrica começa com processos aparentemente simples: o impacto das gotas de chuva no solo, a desagregação das partículas e o transporte dessas partículas pela água. Quando o escoamento ocorre de forma difusa sobre a superfície, ele produz erosão laminar. Quando a água se concentra em determinados caminhos, porém, passa a escavar o terreno e pode originar sulcos, ravinas e voçorocas.

Essas incisões são a expressão visível de uma reorganização mais profunda da paisagem. Solo e sedimentos são removidos das vertentes e transportados para posições mais baixas, podendo alcançar os canais de drenagem. À medida que as feições crescem, a circulação da água também pode ser alterada, criando novas condições para que a erosão continue a avançar.

Esse processo torna-se particularmente relevante em áreas de uso intenso. Mato Grosso reúne três grandes biomas — Amazônia, Cerrado e Pantanal — e apresenta uma ampla diversidade de solos, relevos e condições climáticas. Ao mesmo tempo, consolidou-se como um dos principais centros da produção agrícola e pecuária do Brasil.

Nesse contexto, compreender a erosão exige olhar simultaneamente para as características naturais da paisagem e para as formas de ocupação da terra. Como já discutimos no COLAPSO, ao abordar o perfil do solo como ferramenta para compreender a gênese, a degradação e a memória das paisagens, diagnósticos ambientais baseados apenas na superfície ou em variáveis isoladas podem ocultar limitações importantes do solo e de seu funcionamento.

No caso do Mato Grosso, estudos anteriores já apontavam a interação entre a suscetibilidade dos solos e as práticas de uso e manejo, incluindo o manejo de pastagens e de gado, bem como a ausência ou a inadequação de práticas conservacionistas. O novo trabalho avança nessa discussão ao questionar como essas relações se manifestam quando a erosão é observada em escala estadual.

Como encontrar 61 mil focos de erosão em um estado inteiro?

Para responder à pergunta, foi necessário, primeiro, construir um grande inventário espacial.

Os pesquisadores identificaram ravinas e voçorocas de médio e grande porte, com pelo menos 20 metros de comprimento, por meio da interpretação visual de imagens do GeoEye-1 com resolução espacial de 1,65 metros. A análise foi realizada sistematicamente em escala 1:15.000 e, quando necessária confirmação, em 1:8.000.

Para manter um nível de detalhamento semelhante em todo o território, Mato Grosso foi dividido em uma grade de células de 3 por 3 quilômetros. A identificação das feições considerou a tonalidade, a textura, a forma e o padrão observados nas imagens, além da relação das erosões com canais de drenagem, estradas, trilhas de gado, áreas de solo exposto, lavouras e pastagens. Em razão da escala do levantamento, ravinas e voçorocas foram registradas conjuntamente como focos de erosão hídrica linear.

Ao final, 61.005 focos haviam sido mapeados.

O número indica a dimensão do fenômeno, mas ainda não explica sua organização. Os pesquisadores precisavam saber se as feições estavam distribuídas aleatoriamente ou se havia setores em que se concentravam.

A análise de densidade Kernel permitiu transformar os milhares de pontos em um padrão espacial de concentração. A partir dele, foram delimitadas 15 áreas críticas, classificadas em diferentes níveis de criticidade e apresentando densidades de 0,29 a 0,61 focos por quilômetro quadrado.

O levantamento deixou então de ser apenas um mapa de ocorrências. Passou a mostrar uma geografia da erosão, na qual determinados setores se destacam pela concentração de ravinas e voçorocas.

Por que algumas áreas concentram mais erosão?

A resposta não está em uma única variável.

Chuva, relevo, solo, geologia e uso da terra interferem nos processos erosivos, mas não atuam de forma independente. A mesma quantidade de chuva pode produzir respostas diferentes dependendo da infiltração, da textura do solo, da cobertura vegetal, da declividade, da forma da vertente e do manejo do solo.

Para investigar essa combinação, os pesquisadores utilizaram Análise de Componentes Principais (PCA), técnica estatística que permite identificar quais variáveis têm maior importância para organizar a variabilidade de um conjunto de dados.

Dois fatores se destacaram: os compartimentos do relevo e a incompatibilidade entre o uso da terra e o potencial agrícola dos solos.

Esse segundo resultado é particularmente relevante porque mostra que a presença de agricultura ou de pecuária, por si só, não explica a distribuição da erosão. O problema reside na relação entre o uso e as condições que a paisagem oferece para sustentá-lo.

Um terreno pode apresentar limitações relacionadas ao solo, ao relevo ou à circulação da água. Quando o uso não leva em conta essas limitações, a suscetibilidade natural pode ser intensificada. Em outras palavras, a erosão não depende apenas de onde se produz, mas também de como as características do terreno se relacionam com essa produção.

É uma perspectiva próxima àquela discutida em outros trabalhos apresentados no COLAPSO: solos precisam ser interpretados em sua relação com a paisagem, e não como corpos isolados do relevo, da circulação da água e dos processos que reorganizam os materiais ao longo das vertentes.

Do mapa estadual ao principal hotspot de erosão

A escala estadual mostrou onde estavam as maiores concentrações. O passo seguinte foi aproximar a lente.

Entre as 15 áreas críticas identificadas, uma delas, denominada ECA-1, apresentou a maior densidade: 0,61 focos de erosão por quilômetro quadrado. Essa área foi selecionada para uma análise local mais detalhada, que incorpora informações morfopedológicas e morfométricas.

Há uma diferença importante entre escolher o caso mais crítico e considerá-lo representativo de todo o estado. Os próprios autores ressaltam que a ECA-1 não constitui uma amostra estatisticamente representativa do Mato Grosso. Ela foi escolhida propositalmente como um caso extremo, capaz de mostrar, com maior detalhe, como os condicionantes identificados regionalmente se manifestam no setor de maior criticidade.

Essa mudança de escala permitiu enxergar relações que o mapa estadual, por si só, não revelaria.

Na ECA-1, a intensificação dos processos erosivos está associada à combinação de solos arenosos, uso intensivo para agricultura e pecuária e relevo suavemente ondulado.

O resultado também chama a atenção para uma ideia nem sempre intuitiva: os maiores problemas de erosão linear não precisam ocorrer exclusivamente nas vertentes mais íngremes. Relevos suavemente ondulados podem apresentar condições favoráveis à concentração dos fluxos, sobretudo quando essa configuração se combina com solos suscetíveis e com determinadas formas de uso e manejo.

O relevo importa, portanto, não apenas por sua declividade. Sua organização controla os caminhos preferenciais da água, conecta setores da vertente e interfere na transferência de água e sedimentos pela paisagem.

Quando o uso da terra ultrapassa as limitações do solo

A incompatibilidade entre o uso da terra e o potencial agrícola dos solos figura entre os principais condicionantes identificados na análise regional. Esse resultado tem uma consequência prática: não há uma única recomendação de manejo aplicável a todas as áreas.

Solos diferentes apresentam respostas distintas ao mesmo uso. A agricultura praticada em um terreno com determinadas características de textura, drenagem e relevo não produz necessariamente os mesmos efeitos quando praticada em outro tipo de solo. O mesmo vale para pastagens.

É justamente por isso que conhecer o solo em profundidade continua sendo importante para o planejamento. Perfis de solo revelam limitações que frequentemente não se observam apenas na superfície, incluindo características que interferem na infiltração, na drenagem, no crescimento das raízes e na suscetibilidade à degradação.

Quando essas informações são integradas ao relevo e ao uso da terra, torna-se possível reconhecer áreas onde determinada atividade é realizada em condições de maior vulnerabilidade.

A erosão passa, então, a ser entendida não apenas como consequência de uma chuva intensa ou de um solo suscetível, mas como resultado das relações entre água, solo, relevo e formas de uso da paisagem.

Da identificação das áreas críticas à conservação dos solos

Mapear 61 mil focos de erosão no Mato Grosso seria pouco útil se o resultado se limitasse a um inventário.

A principal contribuição da abordagem multiescalar está justamente em transformar esse grande conjunto de ocorrências em uma ferramenta para identificar prioridades. Em um território com as dimensões do Mato Grosso, é inviável realizar levantamentos locais detalhados em todos os setores simultaneamente. A análise regional permite, primeiro, identificar padrões, delimitar áreas de maior criticidade e, depois, direcionar investigações de maior resolução.

As 15 áreas críticas não são, portanto, os únicos locais do Mato Grosso onde há erosão linear. Os 61.005 focos mostram que o fenômeno apresenta uma distribuição muito mais ampla. Essas áreas correspondem aos setores em que as concentrações atingiram os níveis definidos pelo estudo para caracterizar maior criticidade.

Essa diferença é importante. O mapa não separa simplesmente lugares “com erosão” de lugares “sem erosão”. Ele mostra diferentes níveis de concentração espacial do problema.

É essa informação que pode orientar novos levantamentos, ações de monitoramento e estratégias de conservação. Ao combinar sensoriamento remoto, geoprocessamento, análise estatística, compartimentação morfopedológica e análise do relevo, o estudo traça um caminho que parte da identificação regional do problema e chega à investigação dos processos em maior detalhe.

Os autores destacam que os resultados fornecem uma base científica para compreender a distribuição espacial e os condicionantes da erosão hídrica linear no Cerrado do Mato Grosso e podem contribuir para diagnósticos ambientais multiescalares e para estratégias de conservação dos solos.

Uma geografia da erosão no Mato Grosso

Os 61.005 focos identificados dão uma dimensão da erosão hídrica linear no estado, mas o principal resultado do estudo não se resume a esse número. Está no padrão que emerge quando essas ocorrências são relacionadas às características da paisagem.

A erosão não se distribui uniformemente e tampouco pode ser atribuída a uma causa única. Relevo, solos e uso da terra interagem, produzindo combinações que podem aumentar ou reduzir a suscetibilidade da paisagem a processos erosivos. A análise detalhada da área mais crítica reforça essa interpretação ao evidenciar a associação entre solos arenosos, agricultura e pecuária intensivas e um relevo suavemente ondulado.

O estudo também mostra o valor de mudar de escala. Visto de longe, o mapa estadual permite reconhecer grandes padrões. Quando a análise se aproxima do principal hotspot, torna-se possível compreender melhor como esses condicionantes se combinam no terreno. O movimento entre escalas transforma milhares de pontos em uma interpretação dos processos que organizam a paisagem.

Em uma das principais regiões agropecuárias do Brasil, essa informação tem implicações que vão além do diagnóstico geomorfológico. O solo é parte fundamental da própria base produtiva. Reconhecer onde e em quais condições ele está sendo perdido também é uma forma de pensar a sustentabilidade do uso da terra.

O trabalho reforça, assim, uma questão central para a Geografia Física e para a Ciência do Solo: compreender a degradação exige integrar processos naturais e uso da terra em diferentes escalas. No Mato Grosso, as dezenas de milhares de ravinas e voçorocas mapeadas não são apenas pontos em um mapa. Sua distribuição registra como água, solos, relevo e ocupação do território se encontram, e onde essa relação se torna mais crítica.


Referência

TAVARES, Kássio Samay Ribeiro; ALVES, Grace Bungenstab; CASTRO, Selma Simões de. Linear water erosion in the State of Mato Grosso (Brazil): spatial analysis and identification of critical areas. Earth Surface Processes and Landforms, v. 51, e70414, 2026. DOI: https://doi.org/10.1002/esp.70414.


Como citar este texto

ALVES, Grace Bungenstab. 61 mil focos de erosão revelam áreas críticas de degradação do solo no Mato Grosso. Blog do Grupo de Pesquisa COLAPSO, 2026. Disponível em: https://colapso.ggf.br/erosao-hidrica-mato-grosso/. Acesso em: 2 out. 2026.

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