Estudo publicado na revista Catena mostra como solos, relevo e couraças ferruginosas ajudam a reconstruir a evolução de um planalto sedimentar no Nordeste e revelam uma paisagem que não pode ser explicada apenas pelo clima semiárido atual
Quando pensamos no Semiárido brasileiro, solos pouco desenvolvidos, baixa disponibilidade de água e intemperismo químico limitado estão entre as características normalmente associadas à paisagem. Algumas áreas do Nordeste, porém, fogem desse padrão. Em superfícies elevadas e relativamente planas, solos profundos e intensamente intemperizados coexistem com solos rasos nas vertentes escarpadas, com materiais ferruginosos endurecidos nas bordas do planalto e com áreas de acumulação de sedimentos nos fundos dos vales. Mais do que uma diversidade de solos, esse conjunto registra diferentes processos e tempos da evolução da paisagem.
É o que mostra o artigo “Soil-geomorphology relationships in sedimentary plateau (semiarid region of Northeast Brazil)”, publicado em 2026 na revista científica Catena. O estudo, assinado por Danielma Ferreira da Rocha, Davi do Vale Lopes, Damião Isaac de Lira, Anderson da Silva Santos, José João Lelis Leal de Souza e Grace Bungenstab Alves, investigou como os solos e as formas de relevo se relacionam em um planalto sedimentar no município de Picuí, na Paraíba.
A pesquisa foi realizada na Reserva Particular do Patrimônio Natural Olho d’Água das Onças, inserida no domínio da Caatinga. A área está associada à Formação Serra do Martins, uma cobertura sedimentar encontrada em diferentes planaltos do interior do Nordeste brasileiro. Essas superfícies são remanescentes de uma cobertura sedimentar anteriormente mais contínua, posteriormente dissecada e erodida, e constituem ambientes particularmente interessantes para investigar a evolução das paisagens semiáridas. Mais do que descrever os solos existentes na reserva, os pesquisadores procuraram compreender como a pedogênese e a morfogênese atuam conjuntamente na construção da paisagem.
O que os solos revelam sobre a paisagem?
Solos e relevo não evoluem de forma independente. A posição de um solo na paisagem influencia a circulação da água, a remoção e a deposição de sedimentos, a intensidade da erosão e as condições disponíveis para o intemperismo. Ao mesmo tempo, as propriedades dos solos e dos materiais que os constituem podem favorecer a estabilidade ou participar da transformação das próprias formas de relevo. É essa interação que está no centro da pedogeomorfologia.
Para investigá-la, os pesquisadores combinaram análise geomorfológica em ambiente de Sistema de Informação Geográfica (SIG), trabalhos de campo realizados entre 2021 e 2024 e análises morfológicas, físicas e químicas de sete perfis de solo. Os pontos foram escolhidos de modo a representar a diversidade de posições no relevo, de substratos geológicos, de condições de drenagem e de cobertura vegetal existentes na área.
A análise permitiu reconhecer cinco compartimentos geomorfológicos: planalto, escarpa, vale de fundo plano, vale estrutural e planície aluvial. O planalto é o mais extenso e ocupa quase metade da área mapeada. A distribuição dos solos acompanha essas diferenças do relevo e revela um gradiente entre setores nos quais predominam a estabilidade e o desenvolvimento pedogenético e outros marcados pela erosão, pelo transporte ou pela acumulação de sedimentos.
Essa organização reforça a importância de interpretar o solo e o relevo conjuntamente para compreender a evolução da paisagem semiárida. Perfis isolados mostram características dos solos, mas é sua posição na paisagem e sua relação com as formas do relevo que ajudam a distinguir heranças de condições ambientais pretéritas de processos mais recentes de transformação.
No topo do planalto, um solo que conta outra história climática
Um dos resultados mais significativos ocorre justamente na superfície mais elevada e plana. No topo do planalto foi identificado um Latossolo Amarelo Distrófico psamítico, classificado internacionalmente como Ferralsol (Loamic, Dystric). O perfil apresenta mais de 1,20 metros de profundidade, horizontes Bw bem desenvolvidos, estrutura relativamente estável e características físicas e químicas indicativas de um estágio avançado de intemperismo.
Essa associação chama a atenção porque o ambiente semiárido atual apresenta disponibilidade de água limitada para sustentar, nas mesmas condições, processos prolongados de intemperismo químico intenso. A baixa relação silte/argila observada ao longo do perfil, associada à elevada capacidade de retenção de fósforo, à lixiviação de bases e a outras propriedades do solo, reforça a interpretação de uma longa evolução pedogenética.
Os autores relacionam essas características a assinaturas pedológicas herdadas de condições paleoclimáticas mais úmidas, posteriormente preservadas pela estabilidade geomorfológica do topo do planalto. O solo, nesse sentido, funciona como um registro de condições ambientais que não correspondem integralmente às observadas atualmente.
A ocorrência de Latossolos no Semiárido nordestino e o que essa aparente contradição pode revelar sobre a evolução da paisagem já foram discutidos nas postagens do COLAPSO. Estudos realizados em outras áreas do Nordeste também identificaram solos e feições herdados de períodos mais úmidos, indicando que as paisagens atualmente semiáridas passaram por importantes mudanças paleoambientais. No caso da RPPN Olho d’Água das Onças, o novo trabalho acrescenta um elemento essencial a essa discussão: não basta reconhecer as características herdadas do solo; é preciso compreender também por que foram preservadas naquela posição da paisagem.
Superfícies estáveis favorecem solos mais desenvolvidos
A resposta está, em grande parte, no relevo. O topo do planalto apresenta baixas declividades e pouca remoção de sedimentos. Nessas condições, a pedogênese pode atuar por períodos prolongados, sem que o material seja continuamente retirado pela erosão. A estabilidade geomorfológica favorece tanto o desenvolvimento quanto a preservação de mantos de alteração profundos.
Essa combinação de relevo plano, solo bem estruturado e elevada permeabilidade também favorece a infiltração e os fluxos verticais de água. Por isso, os autores destacam que essas superfícies podem constituir importantes áreas de recarga de águas subterrâneas no Semiárido. A presença de um solo intensamente lixiviado em condições climáticas atualmente secas deixa, assim, de ser apenas uma aparente contradição pedológica e passa a fazer sentido quando solo, relevo, circulação da água e tempo são analisados em conjunto.
Nas bordas do planalto ocorre praticamente o inverso. À medida que as declividades aumentam, intensifica-se a remoção de materiais e a morfogênese passa a ter maior importância em relação à pedogênese. Nessas áreas predominam Cambissolos e Neossolos mais rasos, alguns com contato com a rocha ou com o material de origem a pequena profundidade, associados a terrenos pedregosos e rochosos.
A diferença é particularmente evidente nas escarpas, onde as declividades podem ultrapassar 75%. Esses são os setores geomorfologicamente mais dinâmicos e vulneráveis da área, sujeitos à erosão e a movimentos de massa. Em uma distância relativamente pequena, portanto, passa-se de uma superfície estável, capaz de preservar um solo profundamente intemperizado, para vertentes nas quais a retirada contínua de material restringe o desenvolvimento dos solos.
Couraças ferruginosas também ajudam a sustentar o relevo
Outro elemento importante dessa história são os materiais ferruginosos encontrados nas margens do planalto. Nesse setor, os pesquisadores identificaram um Plintossolo Pétrico, desenvolvido sobre materiais ricos em ferro e associado a uma superfície extremamente pedregosa. O perfil apresenta uma camada concrecionária próxima à superfície, que restringe o desenvolvimento das raízes e cria condições ambientais bastante distintas das observadas no topo do planalto.
Esses materiais endurecidos apresentam elevada resistência à erosão. Em vez de serem apenas produtos do intemperismo, as couraças ferruginosas podem atuar como elementos de sustentação do relevo, contribuindo para manter níveis topográficos elevados enquanto materiais sedimentares menos resistentes ao redor são progressivamente removidos. Essa relação entre materiais ferruginosos, solos e evolução da paisagem é uma das questões que vêm ganhando espaço nas pesquisas sobre Plintossolos tropicais.
Na área estudada, a degradação das couraças também parece participar da reorganização do relevo. Os autores associam esse processo ao desenvolvimento de formas côncavas e de vales de fundo plano. Fraturas e outras descontinuidades estruturais podem funcionar como zonas de fraqueza, favorecendo a circulação da água e a progressiva dissecação da superfície. Forma-se, assim, uma relação de mão dupla: a evolução da paisagem condiciona a formação e a preservação dos materiais ferruginosos e, depois de endurecidos, esses materiais passam a influenciar a resistência do próprio relevo à erosão.
Os setores concrecionários apresentam ainda uma vegetação particular, com ocorrência de espécies como macambira e cactáceas, adaptadas à elevada pedregosidade, à baixa disponibilidade de nutrientes e ao déficit hídrico. Essa associação reforça a necessidade de interpretar conjuntamente o solo, o relevo e a vegetação e ajuda a explicar por que os autores recomendam atenção especial à conservação desses ambientes.
Dos topos aos vales: uma paisagem conectada
Se o topo do planalto preserva registros de uma longa história de intemperismo, os setores mais baixos mostram o destino de parte dos materiais removidos das áreas elevadas. Água e sedimentos percorrem as vertentes e convergem para o vale estrutural, o compartimento mais baixo da área e provavelmente condicionado por falhas, fraturas ou outras estruturas geológicas.
Dentro desse sistema, ocorre uma pequena planície aluvial, na qual foi identificado um Neossolo Flúvico formado pela acumulação de sedimentos. O perfil apresenta cinco horizontes e marcadas descontinuidades sedimentares, evidenciando diferentes episódios de deposição. Parte dessa dinâmica pode ter sido modificada pela ação humana, uma vez que pequenas barragens anteriormente construídas para armazenamento de água teriam favorecido a retenção de sedimentos.
A organização dos solos permite, dessa maneira, acompanhar parte do percurso da matéria ao longo da paisagem. Materiais retirados das vertentes podem ser transportados pela água e voltar a integrar a cobertura pedológica em posições mais baixas. O que, em um setor, aparece como erosão, em outro se expressa como sedimentação e formação de novos solos.
Essa conexão também evidencia o papel da água na diferenciação da paisagem. No topo plano, a infiltração e os fluxos verticais favorecem o desenvolvimento e a preservação de solos profundos; nas vertentes inclinadas, o escoamento superficial aumenta o potencial erosivo; nos fundos de vale, a água e os sedimentos convergem e criam condições para a deposição. A importância da disponibilidade hídrica na transformação dos solos do Semiárido também é destacada em outros estudos discutidos no COLAPSO, como a pesquisa sobre os efeitos das variações de precipitação na formação e transformação dos solos.
Solos como arquivos da evolução da paisagem
Quando os diferentes compartimentos são observados em conjunto, emerge uma paisagem que não pode ser explicada apenas pelas condições ambientais atuais. No topo, um Latossolo profundamente intemperizado preserva características relacionadas a uma longa história pedogenética e a condições mais úmidas do passado. Nas bordas, solos rasos registram setores em que a erosão limita o desenvolvimento dos perfis. As couraças ferruginosas ajudam a preservar partes do relevo, ao mesmo tempo em que sua degradação contribui para a dissecação da superfície. Nos fundos de vale, os sedimentos provenientes das áreas mais elevadas se acumulam e passam a constituir novos solos.
Esses registros não necessariamente pertencem ao mesmo momento. É justamente a coexistência de processos e heranças de diferentes idades que torna a paisagem uma fonte de informação sobre sua própria história. O solo preservado no topo não informa apenas sobre a pedogênese atual, assim como o relevo não é apenas o cenário sobre o qual os solos se distribuem. Ambos guardam evidências de transformações acumuladas ao longo do tempo.
Essa leitura tem implicações práticas para a conservação da RPPN Olho d’Água das Onças. O estudo mostra que os diferentes compartimentos não apresentam a mesma estabilidade nem respondem da mesma forma às intervenções. O topo do planalto reúne condições de maior estabilidade geomorfológica, enquanto as vertentes do vale estrutural e, principalmente, as escarpas são mais vulneráveis à erosão e a movimentos de massa. Os vales de fundo plano associados aos materiais ferruginosos constituem ambientes singulares, e a planície aluvial, sujeita a inundações e à chegada de sedimentos, deve permanecer com intervenção mínima.
Compreender essas diferenças é particularmente importante em uma região em que as mudanças climáticas podem alterar o regime hídrico, os processos erosivos e o funcionamento dos solos. A paisagem do Semiárido não é homogênea nem responde uniformemente às mudanças ambientais. Conhecer sua história também ajuda a reconhecer quais setores são mais resistentes, quais são mais vulneráveis e quais preservam registros que podem desaparecer caso sejam degradados.
O estudo reforça, assim, uma ideia central da Geografia Física: a paisagem atual contém diferentes tempos sobrepostos. Ler essa história exige integrar solo, relevo, água, materiais e processos. No planalto sedimentar de Picuí, do Latossolo preservado no topo aos sedimentos acumulados no fundo do vale, cada posição registra uma parte da trajetória de transformação da paisagem semiárida.
Referência
ROCHA, Danielma Ferreira da; LOPES, Davi do Vale; LIRA, Damião Isaac de; SANTOS, Anderson da Silva; SOUZA, José João Lelis Leal de; ALVES, Grace Bungenstab. Soil-geomorphology relationships in sedimentary plateau (semiarid region of Northeast Brazil). Catena, v. 273, 110410, 2026. DOI: https://doi.org/10.1016/j.catena.2026.110410.




