Mapa de Salvador com a distribuição da população negra e as ocorrências de movimentos de massa do tipo deslizamento entre 2014 e 2019. Ao lado, gráfico de 38 mortes entre 2000 e 2015: 19 associadas a fatores combinados, oito a problemas de contenção ou intervenções nas encostas e 11 às chuvas. Fonte: Souza (2025), sob orientação de Grace Bungenstab Alves, UFBA.
28 de outubro de 2026

Por trás da lona preta: por que a chuva não explica sozinha os desastres em Salvador

Por Grace Bungenstab Alves

Pesquisas do Grupo COLAPSO relacionam deslizamentos, infraestrutura e desigualdades raciais na capital baiana e mostram os limites de uma gestão concentrada na emergência.

A lona estendida sobre uma encosta é uma imagem recorrente nos períodos chuvosos de Salvador. Ela sinaliza uma tentativa de proteção, mas também faz uma pergunta: o que permanece sem solução quando a cobertura provisória se torna parte da paisagem? Para compreender os desastres na cidade, é preciso olhar tanto para a água que chega ao solo quanto para as condições de moradia, a drenagem e as decisões públicas que antecedem cada ocorrência.

Essa é a perspectiva de um conjunto de pesquisas desenvolvidas por Jilvana Ferreira da Silva Souza, sob orientação de Grace Bungenstab Alves, na Universidade Federal da Bahia, junto ao Grupo COLAPSO. A trajetória reúne estudos sobre a suscetibilidade das encostas, racismo estrutural e gestão de riscos, culminando na dissertação Por trás da lona preta: necropolítica e deslizamentos em Salvador, Bahia, defendida em 2025, e em trabalhos apresentados em encontros científicos.

Uma análise documental preliminar, também intitulada Por trás da lona preta, foi publicada em 2023. Em 2024, a apresentação “Cidade de papel: relação entre precipitação e deslizamentos em Salvador, Bahia (Brasil)” levou os resultados sobre chuva e vítimas fatais ao Seminário Internacional Multirrisco.

O terreno ajuda a explicar o processo; a cidade ajuda a explicar o risco

Movimentos de massa são deslocamentos de solo, rocha ou outros materiais da encosta, sob a ação da gravidade. Os estudos reunidos nesta reportagem concentram-se nos movimentos do tipo deslizamento. Sua ocorrência depende de condições como as características das rochas, dos solos, do relevo e da circulação da água. Cortes no terreno, vazamentos e intervenções na drenagem também podem comprometer a estabilidade das encostas.

Um estudo de Jilvana Ferreira da Silva Souza, Laís Fagundes Jesus Silva e Grace Bungenstab Alves, apresentado no Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada de 2019, identificou relações entre as ocorrências e as falhas geológicas e os contatos entre diferentes tipos de rocha. O resultado reforça a necessidade de examinar a paisagem de forma integrada: a inclinação do terreno, isoladamente, não explica a distribuição dos eventos.

Mas suscetibilidade e risco são dimensões distintas. A primeira trata da propensão de um terreno a determinados processos. Para compreender o risco e seus possíveis danos, entram também as pessoas e as edificações expostas, suas condições de proteção e a capacidade de enfrentar e de se recuperar dos impactos.

Um trabalho apresentado em Atenas, em 2019, com a participação de Grace Bungenstab Alves e de outros integrantes da equipe, já mostrava essa diferença: setores com suscetibilidade elevada podiam apresentar condições distintas de vulnerabilidade social. Segundo aquela análise, a combinação dessas dimensões ampliava o risco na porção noroeste em comparação com a porção sudeste.

O que os registros de mortes revelam

Na dissertação de 2025, Souza investigou registros de movimentos de massa e de desabamentos com vítimas entre 2000 e 2015, bem como documentos de planejamento urbano, relatórios públicos e dados de precipitação. Os dois tipos de ocorrência foram examinados separadamente: um desabamento de edificação não corresponde necessariamente a um movimento de massa na encosta.

Entre as 38 mortes por movimentos de massa do tipo deslizamento analisadas, a classificação final apresentada na pesquisa distribuiu os casos em três grupos:

  • 19 mortes em eventos associados a um conjunto de fatores, como chuva, saturação do solo e problemas de infraestrutura;
  • 8 mortes em eventos relacionados a problemas de contenção ou intervenções nas encostas;
  • 11 mortes em eventos classificados no grupo associado às chuvas.

Assim, cerca de 71% das mortes desse recorte ocorreram nos dois primeiros grupos. O percentual refere-se às vítimas fatais analisadas, não à proporção de todos os movimentos de massa de Salvador, nem à contribuição física de cada fator.

A classificação também exigiu a comparação de documentos. Dois movimentos de massa de 2015 constavam no histórico da Defesa Civil como associados às fortes chuvas. Entretanto, o relatório da Operação Chuva descrevia, para esses episódios, a combinação de precipitação, precariedade construtiva e problemas de abastecimento, de esgotamento sanitário ou de drenagem. Por isso, a pesquisadora os incluiu no grupo de fatores combinados.

A chuva continua sendo um possível gatilho. O resultado mostra que atribuir a ela, sozinha, a explicação do desastre apaga as condições que poderiam ter sido enfrentadas antes da emergência.

A desigualdade também compõe a paisagem

O trabalho de conclusão de curso de Souza, de 2021, e a dissertação ampliaram a investigação para a formação histórica de Salvador e para as condições de acesso à terra, à moradia e aos serviços urbanos.

Na interpretação das pesquisadoras, a exposição das populações negras e pobres aos desastres relaciona-se a processos de segregação e à distribuição desigual de infraestrutura e de proteção. O racismo ambiental aparece, nessa abordagem, na maneira como riscos e danos recaem desigualmente sobre diferentes grupos sociais.

A dissertação utiliza ainda o conceito de necropolítica para interpretar decisões e omissões estatais que mantêm determinadas populações expostas à possibilidade de morte. Trata-se de uma leitura teórica, apoiada na análise histórica, territorial e documental, que desloca a discussão da fatalidade para as condições políticas de produção e manutenção do risco.

Da resposta emergencial à prevenção permanente

A investigação não se limitou aos registros de ocorrências. Souza examinou 347 registros do Diário Oficial da Câmara Municipal, entre 2011 e 2021, além de planos municipais e de um procedimento administrativo da Promotoria de Justiça sobre as encostas.

Os resultados apontam uma distância entre os instrumentos de planejamento e sua execução. Os trabalhos reconhecem mudanças na atuação institucional, mas identificam, nos períodos examinados, a predominância de respostas emergenciais e de intervenções pontuais em detrimento de políticas integradas de longo prazo.

Essa discussão aparece em Operação Chuva em Salvador: quanto vale ou é por gota?, de Jilvana Souza, Grace Bungenstab Alves e Paulo César Zangalli Júnior, que examinou relatórios da operação de 2015 a 2021. Retorna também nos trabalhos “Entre acidentes e desastres: um olhar sobre a gestão de riscos” e “Um olhar sobre os documentos institucionais: gestão de riscos em Salvador, Bahia”, de Souza e Alves, ambos publicados em 2025.

Para as autoras, as palavras usadas para descrever os acontecimentos também importam. Tratar eventos recorrentes como acidentes pode encobrir condições conhecidas de vulnerabilidade. A prevenção exige articular o conhecimento das encostas com a drenagem, o saneamento, a assistência técnica, a conservação de edificações e o acesso à moradia segura.

O alcance dos resultados

Os dados de mortes analisados abrangem o período de 2000 a 2015. Eles não permitem avaliar, por si, a evolução das mortes ou a eficácia das ações municipais posteriores. Os registros de chuva utilizados também têm uma limitação espacial importante: provêm da estação de Ondina e não descrevem necessariamente a precipitação em cada encosta da cidade.

Por isso, os estudos não devem ser lidos como uma previsão de movimentos de massa em bairros específicos, nem como demonstração de que a chuva deixou de importar. Sua contribuição é evidenciar que a redução de danos depende de compreender, conjuntamente, os processos físicos, as desigualdades sociais e as decisões públicas.

Essa perspectiva dialoga com outras pesquisas do COLAPSO. Para entender o risco e planejar melhor, o grupo adota uma abordagem que combina dados e experiências das comunidades na análise dos impactos climáticos. O mapeamento das ilhas de calor de Salvador também ajuda a entender como as condições ambientais variam na cidade.

A pergunta que atravessa essas pesquisas é como transformar conhecimento em proteção. Nas encostas de Salvador, isso significa fazer da prevenção uma política contínua, capaz de enfrentar as condições que tornam a chegada da chuva uma ameaça à vida.

Referências

ALVES, Grace Bungenstab; SOUZA, Jilvana; SILVA, Laís; SANTANA, Jessica; ZANGALLI JUNIOR, Paulo. Risks of landslides in Salvador, Bahia (Brazil): the relationship between the environmental susceptibility and social vulnerability. In: REGIONAL CONFERENCE ON GEOMORPHOLOGY, 2019, Athens. Abstract book: geomorphology of climatically and tectonically sensitive areas. Athens: Organizing Committee of the Regional Conference on Geomorphology, 2019. p. 130. Disponível em: livro de resumos oficial. Acesso em: 28 out. 2026.

SOUZA, Jilvana Ferreira da Silva. Riscos socioambientais, racismo estrutural e deslizamentos em Salvador. 2021. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Geografia) – Instituto de Geociências, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2021. Orientadora: Grace Bungenstab Alves. Disponível em: Repositório Institucional da UFBA. Acesso em: 28 out. 2026.

SOUZA, Jilvana Ferreira da Silva. Por trás da lona preta: necropolítica e deslizamentos em Salvador, Bahia. 2025. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Instituto de Geociências, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2025. Orientadora: Grace Bungenstab Alves. Disponível em: Repositório Institucional da UFBA. Acesso em: 28 out. 2026.

SOUZA, Jilvana Ferreira da Silva; ALVES, Grace Bungenstab. Por trás da lona preta: necropolítica e deslizamentos em Salvador, Bahia. In: ENCONTRO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM GEOGRAFIA, 15., 2023, Palmas. Anais […]. Campina Grande: Realize Editora, 2023. Disponível em: publicação nos anais do XV ENANPEGE. Acesso em: 28 out. 2026.

SOUZA, Jilvana Ferreira da Silva; ALVES, Grace Bungenstab. Cidade de papel: relação entre precipitação e deslizamentos em Salvador, Bahia (Brasil). 2024. 11 slides. Apresentação no Seminário Internacional Multirrisco, 2024. DOI: 10.13140/RG.2.2.15684.44167. Disponível em: apresentação no ResearchGate. Acesso em: 28 out. 2026.

SOUZA, Jilvana Ferreira da Silva; ALVES, Grace Bungenstab. Entre acidentes e desastres: um olhar sobre a gestão de riscos. In: ENCONTRO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM GEOGRAFIA, 16., 2025, Macapá. Anais […]. Campina Grande: Realize Editora, 2025a. Disponível em: texto completo nos anais do XVI ENANPEGE. Acesso em: 28 out. 2026.

SOUZA, Jilvana Ferreira da Silva; ALVES, Grace Bungenstab. Um olhar sobre os documentos institucionais: gestão de riscos em Salvador, Bahia. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE CLIMATOLOGIA GEOGRÁFICA, 16., 2025, Crato. Anais […]. Crato: Even3, 2025b. p. 2935–2945. Disponível em: publicação nos anais do XVI SBCG. Acesso em: 28 out. 2026.

SOUZA, Jilvana Ferreira da Silva; ALVES, Grace Bungenstab; ZANGALLI JÚNIOR, Paulo César. Operação Chuva em Salvador: quanto vale ou é por gota? In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEÓGRAFAS E GEÓGRAFOS, 8., 2024, São Paulo. Anais […]. São Paulo: Associação dos Geógrafos Brasileiros, 2024. Disponível em: texto completo nos anais do VIII CBG. Acesso em: 28 out. 2026.

SOUZA, Jilvana Ferreira da Silva; SILVA, Laís Fagundes Jesus; ALVES, Grace Bungenstab. Susceptibilidade a deslizamentos em Salvador-BA. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA, 18., 2019, Fortaleza. Anais […]. Fortaleza: [s. n.], 2019. Disponível em: texto completo no ResearchGate. Acesso em: 28 out. 2026.

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