3 de junho de 2025

Chuva como agente de transformação dos solos do semiárido brasileiro

Por Grace B. Alves

Estudo revela como a variação na precipitação altera a cor, estrutura e mineralogia dos Luvissolos no sertão nordestino, afetando sua fertilidade e potencial agrícola

No sertão nordestino, onde a agricultura enfrenta os limites impostos por chuvas escassas e irregulares, a ciência do solo pode oferecer respostas para um uso mais sustentável da terra. Em um novo estudo publicado na Journal of South American Earth Sciences, uma equipe de pesquisadores — incluindo Grace B. Alves, do grupo COLAPSO — investigou como diferentes regimes de precipitação influenciam a formação e evolução dos Luvissolos na Província Borborema, em Pernambuco.

A pesquisa comparou três perfis de Luvissolos formados sobre rochas anfibolíticas na Província Borborema, em Pernambuco, sob médias anuais de chuva que variaram de 415 mm a 777 mm. Os resultados indicam que o aumento da precipitação intensifica os processos de formação de argila in situ (argilação), tingimento do solo por óxidos de ferro hematitas (rubefação) e transformação mineralógica, sem promover necessariamente a migração de argilas.

Figura

Variações morfológicas dos Luvissolos ao longo de um gradiente de precipitação na Província Borborema (PE). O transecto semiárido revela o aumento da intensidade da rubefação (índice de vermelhidão) e a redução das feições de fissuração à medida que cresce o índice pluviométrico (Precipitação Média Anual – MAP: 415 a 777 mm). Fotografias dos perfis de solo ilustram as diferenças estruturais e cromáticas observadas em campo. Fonte: Silva, V.R.F. et al. (2024). Impact of climate on mineralogy and formation of Luvisols in Borborema province, northeastern Brazil. Journal of South American Earth Sciences, 149, 105197. https://doi.org/10.1016/j.jsames.2024.105197

Em ambientes mais úmidos, os solos apresentaram cores mais avermelhadas, maior teor de carbono orgânico e maior proporção de caulinita, minerais que conferem maior estabilidade estrutural e menor risco de fissuração. Já em regiões mais secas, predominam minerais expansivos como as esmectitas, responsáveis por fendas e dificuldades no uso agrícola mecanizado.

O estudo demonstra que mesmo pequenas variações no regime hídrico têm efeitos expressivos na mineralogia e morfologia dos solos tropicais secos. Essa compreensão é essencial para avaliar o potencial agrícola, orientar políticas de uso do solo e prever cenários de transformação da paisagem frente às mudanças climáticas.

O artigo reforça uma linha de pesquisa dedicada a compreender as interações entre clima, material de origem e processos pedogenéticos em regiões semiáridas, com potencial para entendimento dos solos e paisagem no semiárido brasileiro e em outras regiões secas.

📄 Artigo citado:

Silva, V.R.F. et al. (2024). Impact of climate on mineralogy and formation of Luvisols in Borborema province, northeastern Brazil. Journal of South American Earth Sciences, 149, 105197. https://doi.org/10.1016/j.jsames.2024.105197

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