Perfis de solo no mundo representados por uma Terra Preta Amazônica e um Ferralsol observados em campo na Amazônia brasileira.
2 de agosto de 2026

Perfis de solo no mundo revelam lacunas no conhecimento sobre a diversidade dos solos

Por Grace B. Alves

Estudo global mostra concentração de dados em áreas agrícolas e florestas temperadas e alerta para a redução dos levantamentos de campo

Os perfis de solo no mundo são registros fundamentais para compreender como os solos se formam, se distribuem nas paisagens e respondem às mudanças climáticas e aos diferentes usos da terra. Entretanto, essas informações ainda se distribuem de forma muito desigual entre regiões, biomas e tipos de cobertura da terra.

Publicado na European Journal of Soil Science, o artigo “Soil Diversity and Climate: An Overview of Profile Data and Acquisition With the WoSIS Global Legacy Dataset” analisou a base global WoSIS 2023. Para isso, os pesquisadores integraram os registros de solos a dados de cobertura da terra do Copernicus e à delimitação dos principais biomas terrestres. O estudo reúne pesquisadores de diferentes países e tem entre as coautoras a professora Grace B. Alves, integrante do Grupo COLAPSO.

Como se distribuem os perfis de solo no mundo

A análise considerou 228.090 registros, dos quais 173.100 corresponderam a perfis completos e 54.990 apenas à camada superficial do solo. Entre as diferentes formas de cobertura da terra, as áreas agrícolas concentram 29,5% dos perfis disponíveis. Em seguida, aparecem as áreas de vegetação herbácea, que representam 17,7%.

Por outro lado, ambientes como manguezais, áreas úmidas, tundras e diversos sistemas áridos e florestais permanecem pouco representados. Consequentemente, essa distribuição desigual limita o conhecimento sobre os processos de formação dos solos e suas funções em diferentes ecossistemas.

Além disso, as florestas temperadas de folhas largas e mistas concentram 32,4% dos registros. Já os biomas tropicais, áridos e frios apresentam densidades consideravelmente menores de perfis documentados. Assim, grande parte da diversidade mundial de solos ainda não está adequadamente representada nas bases de dados globais.

A distribuição dos perfis de solo no mundo reflete tanto a diversidade ambiental do planeta quanto as prioridades históricas dos levantamentos pedológicos. Dessa forma, regiões mais estudadas acumulam informações mais detalhadas, enquanto ambientes remotos ou de difícil acesso permanecem pouco documentados.

Levantamentos de campo diminuíram após 1990

Outro resultado importante é a evolução temporal dos levantamentos pedológicos. O número de perfis com data de amostragem aumentou significativamente entre meados do século XX e a década de 1980. Contudo, esse número diminuiu após 1990.

Segundo os autores, uma possível explicação para essa redução é a crescente prioridade dada ao mapeamento digital, à modelagem e ao sensoriamento remoto. Dessa forma, a descrição direta dos solos em campo pode ter perdido espaço em parte das pesquisas.

No entanto, essa interpretação não implica uma oposição entre os métodos tradicionais e as tecnologias digitais. Pelo contrário, mapas, modelos e sistemas digitais dependem de dados de campo confiáveis para serem desenvolvidos, calibrados e validados.

Por que ainda faltam perfis de solo no mundo

A descrição de perfis continua sendo essencial para identificar horizontes, compreender processos pedogenéticos, interpretar as funções dos solos e avaliar limitações relacionadas ao uso da terra. Portanto, o avanço da ciência digital dos solos não elimina a necessidade da observação direta.

Nesse sentido, os autores defendem a recuperação, a padronização e a publicação de levantamentos históricos. Esses registros devem incluir, sempre que possível, a localização dos perfis, a descrição dos horizontes, fotografias e análises físicas e químicas.

Além disso, o artigo destaca a necessidade de formar uma nova geração de pedólogos capaz de integrar o trabalho de campo, a classificação dos solos, os bancos de dados e as ferramentas digitais. Essa integração pode melhorar tanto o conhecimento científico quanto as estratégias de conservação e de manejo dos solos.

A ampliação e a qualificação dos dados sobre os perfis de solo no mundo também podem contribuir para o desenvolvimento de mapas mais confiáveis, modelos ambientais mais consistentes e políticas mais adequadas de proteção dos solos.

Perfis da Amazônia ilustram a diversidade dos solos tropicais

A contribuição brasileira também aparece nas imagens de dois perfis da Amazônia. Um deles é um Ferralsol, correspondente aos Latossolos no Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. O outro é um Anthrosol associado às Terras Pretas Amazônicas. As fotografias são de Grace B. Alves.

Leia o artigo

SCHILLACI, Calogero et al. Soil Diversity and Climate: An Overview of Profile Data and Acquisition With the WoSIS Global Legacy Dataset. European Journal of Soil Science, v. 77, e70372, 2026. https://doi.org/10.1111/ejss.70372

Para continuar a leitura

Este estudo dialoga com outras publicações do blog do Grupo COLAPSO sobre a importância dos perfis de solo e das relações entre o solo e a paisagem. Para aprofundar a discussão, recomendamos a leitura dos textos:

Perfil de solo: uma janela para entender a gênese, a degradação e a memória das paisagens, que discute como a descrição dos horizontes ajuda a interpretar a formação dos solos, os processos de degradação e a história das paisagens.

Solo e Paisagem: o que (ainda) estamos tentando entender?, que apresenta questões e caminhos de pesquisa para a análise integrada entre solos, relevo e evolução da paisagem.

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